{"id":2500,"date":"2011-11-17T15:07:09","date_gmt":"2011-11-17T15:07:09","guid":{"rendered":"http:\/\/sperandio.org.br\/?p=2500"},"modified":"2011-11-17T15:07:09","modified_gmt":"2011-11-17T15:07:09","slug":"passeio-socratico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sperandio.org\/index.php\/2011\/11\/17\/passeio-socratico\/","title":{"rendered":"PASSEIO SOCR\u00c1TICO"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:right;\">(Frei Betto)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mong\u00f3lia, do Jap\u00e3o e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos, e em paz nos seus mantos cor de a\u00e7afr\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em outro dia, eu observava o movimento do Aeroporto de S\u00e3o Paulo: a sala de espera estava cheia de Executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, j\u00e1 haviam tomado o seu caf\u00e9 da manh\u00e3 em casa; mas, como a companhia a\u00e9rea oferecia outro caf\u00e9, todos comiam vorazmente.Aquilo me fez refletir: \u201cQual dos dois modelos vistos por mim, at\u00e9 aqui, realmente produz felicidade?\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Passados alguns dias, encontrei Dani ela, 10 anos, no elevador, \u00e0s nove da manh\u00e3, e perguntei: \u201cN\u00e3o foi \u00e0 aula?\u201d. E ela me respondeu: \u201cN\u00e3o. Eu s\u00f3 tenho aula \u00e0 tarde\u201d. Comemorei: \u201cQue bom! Isto significa, ent\u00e3o, que, de manh\u00e3, voc\u00ea pode brincar, ou dormir at\u00e9 mais tarde!&#8230;\u201d. \u201cN\u00e3o;\u201d, retrucou-me ela, \u201ctenho tanta coisa a fazer, de manh\u00e3&#8230;\u201d. \u201cQue tanta coisa?\u201d, perguntei. \u201cAulas de ingl\u00eas; de bal\u00e9; de pintura; piscina\u201d, e come\u00e7ou a elencar seu programa de garota robotizada&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Fiquei pensando: \u201cQue pena! A Dani ela n\u00e3o me disse: \u201cTenho aula de medita\u00e7\u00e3o\u201d. V\u00ea-se que estamos construindo super-homens e super-mulheres, totalmente equipados, mas, emocionalmente infantilizados.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Uma progressista cidade do interior de S\u00e3o Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de gin\u00e1stica; hoje, tem sessenta academias de gin\u00e1stica e tr\u00eas livrarias! N\u00e3o tenho nada contra malhar o corpo&#8230; Mas, preocupo-me com a despropor\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 malha\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito. Acho \u00f3timo, vamos todos morrer esbeltos. Alguns perguntaram \u201cComo estava o defunto?\u201d. E outros responder\u00e3o: \u201cOlha&#8230;, uma maravilha, n\u00e3o tinha uma celulite!\u201d&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas, como fica a quest\u00e3o da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Hoje, a palavra \u00e9 virtualidade. Tudo \u00e9 virtual. Trancado em seu quarto, em Bras\u00edlia, um homem pode ter uma amiga \u00edntima em T\u00f3quio, sem nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, de conhecer o seu vizinho de pr\u00e9dio ou de quadra! Tudo \u00e9 virtual. Somos m\u00edsticos virtuais, religiosos virtuais, cidad\u00e3os virtuais. E somos tamb\u00e9m eticamente virtuais&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A palavra hoje \u00e9 \u201centretenimento\u201d. Domingo, ent\u00e3o, \u00e9 o dia nacional da imbeciliza\u00e7\u00e3o coletiva. Imbecil, o apresentador; imbecil, quem vai l\u00e1 e se apresenta no palco; imbecil, quem perde a tarde diante da telinha&#8230; E como a publicidade n\u00e3o consegue vender felicidade, ela nos passa a ilus\u00e3o de que felicidade \u00e9 o resultado da soma de prazeres: \u201cSe tomar este refrigerante, cal\u00e7ar este t\u00eanis, usar esta camisa, comprar este carro&#8230;, voc\u00ea chega l\u00e1!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O problema \u00e9 que, em geral, \u201cn\u00e3o se chega\u201d! Pois, quem cede a tantas propagandas desenvolve, de tal maneira, o seu desejo, que acaba precisando de um analista, ou de rem\u00e9dios. E quem, ao contr\u00e1rio, resiste, aumenta a sua neurose.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O grande desafio \u00e9 come\u00e7ar a ver o quanto \u00e9 bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Ali\u00e1s, para uma boa sa\u00fade mental tr\u00eas requisitos s\u00e3o indispens\u00e1veis: a amizade, a auto-estima, e a aus\u00eancia de estresse.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas, h\u00e1 uma l\u00f3gica religiosa no consumismo p\u00f3s-moderno. Na Idade M\u00e9dia, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constr\u00f3i-se um Shopping Center. \u00c9 curioso: a maioria dos Shoppings Centers tem linhas arquitet\u00f4nicas de catedrais estilizadas; neles, n\u00e3o se pode ir de qualquer maneira, \u00e9 preciso vestir roupa de \u201cmissa de domingo\u201d. E ali dentro se sente uma sensa\u00e7\u00e3o paradis\u00edaca: n\u00e3o h\u00e1 mendigos, n\u00e3o h\u00e1 crian\u00e7as de rua, n\u00e3o se v\u00ea sujeira pelas cal\u00e7adas&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano p\u00f3s-moderno: aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se v\u00e1rios nichos: capelas com os vener\u00e1veis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar \u00e0 vista, sente-se no reino dos c\u00e9us. Mas, aquele que s\u00f3 pode comprar passando cheque pr\u00e9-datado, ou a cr\u00e9dito, ou, ainda, entrando no \u201ccheque especial\u201d, se sente no purgat\u00f3rio. E pior: aquele que n\u00e3o pode comprar, certamente vai se sentir no inferno&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Felizmente, terminam todos na eucaristia p\u00f3s-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hamb\u00farguer do McDonald&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por tudo isto, costumo dizer aos balconistas que me cercam \u00e0 porta das lojas, que estou, apenas, fazendo um \u201cpasseio socr\u00e1tico\u201d. E, diante de seus olhares espantados, explico: \u201cS\u00f3crates, fil\u00f3sofo grego, tamb\u00e9m gostava de descansar a cabe\u00e7a percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como voc\u00eas o assediavam, ele respondia: Estou, apenas, observando quantas coisas existem e das quais n\u00e3o preciso para ser feliz!&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Frei Betto) Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mong\u00f3lia, do Jap\u00e3o e da China. 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