{"id":210,"date":"2009-05-16T17:09:33","date_gmt":"2009-05-16T17:09:33","guid":{"rendered":"http:\/\/sperandio2009.wordpress.com\/?p=210"},"modified":"2009-05-16T17:09:33","modified_gmt":"2009-05-16T17:09:33","slug":"ontem-dia-15-de-setembro-eu-desfiz-75-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sperandio.org\/index.php\/2009\/05\/16\/ontem-dia-15-de-setembro-eu-desfiz-75-anos\/","title":{"rendered":"Ontem, dia 15 de setembro, eu desfiz 75 anos&#8230;"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_2618\" aria-describedby=\"caption-attachment-2618\" style=\"width: 440px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/familiasperandio.files.wordpress.com\/2009\/06\/rubem-alves.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-2618\" alt=\"rubem-alves\" src=\"http:\/\/familiasperandio.files.wordpress.com\/2009\/06\/rubem-alves.jpg\" width=\"440\" height=\"330\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2618\" class=\"wp-caption-text\">&#8230;<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align:justify;\">Minha forma\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica imp\u00f5e-me o uso preciso das palavras porque as palavras devem revelar o ser. E \u00e9 assim, usando de forma precisa as palavras, comunico aos meus leitores que ontem, dia 15 de setembro, eu desfiz 75 anos&#8230; Haver\u00e1 leitores que se apressar\u00e3o a corrigir meu uso estranho, nunca visto, da palavra &#8216;desfazer&#8217;, atribuindo-o, quem sabe, a um in\u00edcio do mal de Alzheimer. Todo mundo sabe que, para se anunciar um anivers\u00e1rio, o certo \u00e9 dizer &#8216;fiz&#8217; tantos anos. No meu caso, &#8216;fiz&#8217; 75 anos&#8230; Mas o verbo \u2018fazer\u2019 sugere algo que aumenta um crescimento do ser, o artista e o artes\u00e3o \u2018fazem\u2019&#8230; Mas, que ser aumenta com a passagem do tempo, esse monstro que devora os seus filhos? O que aumenta \u00e9 o vazio. Esses anos que o aniversariante distra\u00eddo anuncia como anos que ele fez s\u00e3o, precisamente, os anos que ele desfez, o tempo que j\u00e1 passou, que deixou de ser, os anos que o tempo devorou.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por isso acho um equ\u00edvoco filos\u00f3fico perguntar a algu\u00e9m: \u2018Quantos anos voc\u00ea tem?\u2019 O certo seria perguntar \u2018quantos anos voc\u00ea, n\u00e3o tem\u2019. E ela responderia \u2018n\u00e3o tenho 42 anos\u2019, \u2018n\u00e3o tenho 28 anos\u2019. Porque esse n\u00famero de anos indica precisamente os anos que ela n\u00e3o tem mais.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Nos anivers\u00e1rios, ent\u00e3o, a maneira correta de se dirigir ao aniversariante \u00e9 perguntando-lhe \u2018quantos anos voc\u00ea est\u00e1 desfazendo hoje?\u2019<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Com base nessas reflex\u00f5es filos\u00f3ficas acho extremamente estranho e mesmo de mau gosto esse costume de o aniversariante soprar as velinhas acesas para que elas se reduzam a um pavio negro retorcido. A\u00ed, nesse momento, todos gritam e riem de alegria e cantam o \u2018Parab\u00e9ns pra voc\u00ea\u2019, em louvor a essa \u2018data querida&#8230;\u2019<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Bachelard, no seu delicad\u00edssimo livro \u2018A Chama de uma Vela\u2019, que nunca ser\u00e1 best-seller, nos lembra que uma vela que queima \u00e9 uma met\u00e1fora da exist\u00eancia humana. H\u00e1 alguma coisa de tr\u00e1gico na vela que queima: para iluminar, ela tem que morrer um pouco. Por isso ela chora, e suas l\u00e1grimas escorrem sobre o seu corpo sob a forma de estrias de cera.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Uma vela que se apaga \u00e9 uma vela que morre. Algumas velas se consomem todas, morrem de p\u00e9, t\u00eam de morrer porque a cera j\u00e1 se chorou toda. Outras morrem antes da hora \u2013 elas n\u00e3o queriam morrer -, mas veio o vento e a chama se foi.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">As velinhas acesas fincadas no bolo n\u00e3o querem morrer. Elas v\u00e3o ser assassinadas por um sopro. O sopro que apaga as velas \u00e9 o sopro que apaga a vida&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por isso n\u00e3o entendo os risos, as palmas e a alegria que se segue ao sopro que apaga as velas. Uma vela que se apaga \u00e9 um sol que se p\u00f5e, disse Bachelard. E todo p\u00f4r-do-sol \u00e9 triste&#8230; Uma vela que se apaga anuncia um crep\u00fasculo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por isso eu prefiro um ritual diferente, ritual que \u00e9 uma invoca\u00e7\u00e3o. Eu acendo uma vela pedindo aos deuses que me d\u00eaem muitos anos a mais de vida, esses anos que se seguir\u00e3o, que s\u00e3o o \u00fanico tempo que realmente possuo&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Assim fiz, acendi uma vela, meus amigos \u00e0 minha volta. Que coisa boa \u00e9 ter amigos, especialmente quando o crep\u00fasculo e a noite se anunciam!<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Acho que a vida humana n\u00e3o se mede nem por batidas card\u00edacas n em por ondas cerebrais. Somos humanos e permanecemos humanos enquanto estiver acesa em n\u00f3s a esperan\u00e7a da alegria. Desfeita a esperan\u00e7a da alegria, a vela se apaga e a vida perde o sentido. 16\/09\/2008<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Minha forma\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica imp\u00f5e-me o uso preciso das palavras porque as palavras devem revelar o ser. 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