GRÉCIA – Viagem de Estudos -1997
Em 1997 o Departamento e o Curso de Graduação em Filosofia realizaram algo inédito nas nossas universidades: uma viagem de estudos ao exterior para alunos de graduação. Para o bom resultado dessa iniciativa concorreram diversas circunstâncias sendo a mais importante o fato de na década de 1990 haver, entre alunos e professores, grande interesse pela Filosofia Grega Clássica, mas um interesse intelectual abstrato, dado que quase ninguém conhecia a Grécia, e, portanto, não tinha condições de ambientar as vidas dos filósofos que estudava. A segunda circunstância foi o fato de uma agência de turismo ter feito uma proposta financeiramente viável para os alunos: pagava-se, em prestações acessíveis, a viagem e o hotel, e as excursões no país foram reduzidas ao mínimo. Desse modo diversos alunos, que nunca tinham sequer saído do Brasil, puderam pagar a viagem, e mais de vinte se entusiasmaram com essa possibilidade. O número conveniente de participantes no grupo seria de trinta pessoas, mas para completá-lo foram incluídos três professores e alguns parentes de alunos. Finalmente, outra circunstância importante foi o fato de um professor do departamento, Luís Felipe Belintani Ribeiro, estar nessa ocasião estudando em Atenas. Ele não só ajudou a preparar a viagem como serviu de guia e intérprete.
Decidida a realização da viagem e a composição do grupo concordamos em realizar algumas sessões de preparação para tirar melhor proveito da estadia na Grécia. Entre os convidados para fazer uma introdução à Grécia contemporânea contamos com Monsenhor Angelo Kontaxis, responsável pela paróquia de São Nicolau, da Igreja Grega Ortodoxa de Florianópolis.
Como parte da preparação vamos considerar ainda dois fatos: a justificativa do projeto de extensão que foi necessário apresentar às autoridades universitárias para obter autorização para o afastamento dos professores e a ausência às aulas dos alunos; e as cartas que o professor Luís Felipe nos enviou. A primeira consideração sobre a viagem era de caráter genérico e referia-se à teoria pedagógica sobre o que é um curso, o que é aprendizagem e ensino.
Dizia o projeto:
“Um curso se faz com as aulas previstas no currículo, e com atividades acadêmicas variadas, como seminários e palestras, participação em colóquios, e defesas de monografias, mas ele se completa com o estudo em casa e na biblioteca, a conversa de orientação com os professores, a preparação de trabalhos em grupo; muito do que se faz quando se está num curso não ensina nada explicitamente curricular, mas contribui para o estímulo e dedicação ao estudo e ao curso: é a simples convivência, a animação, o ganhar amizades novas, e o sentir-se bem naquele meio social – fatores que uma viagem amplia. Reduzir um curso às atividades de aula é empobrecer não só a formação humana do meio universitário, mas reduzir as próprias oportunidades de aprendizagem profissional.”
Daqui o projeto partia para questões mais amplas, de caráter histórico e antropológico, ao afirmar:
“É certo que o aluno universitário tem carências de preparação em cultura geral; seja qual for a origem dessa deficiência, uma parte dela vem do meio acadêmico em si mesmo, que fez do aluno um funcionário – no pior sentido da palavra – do estudo, com horas e tarefas marcadas e limitadas. Ora a cultura geral é o grande meio que nos enquadra no tempo e no espaço, que agiliza a possibilidade intelectual de fazer relações entre ideias; esse quadro, histórico, geográfico, artístico faz com que aquilo que se aprende receba sentido dentro da expressão humana de uma grande coletividade – disseminada, prolongada por gerações, envolvida pelos mesmos valores e critérios. É a esse tipo de sociedade que chamamos uma civilização, e é esse sentimento de pertença a uma civilização que nós adquirimos quando aprendemos cultura geral – algo que só os imediatistas e superficiais consideram supérfluo. Saber-se parte, e ator, de uma grande civilização ajuda a situar conceitos, umas vezes para relativizá-los, outras para ampliá-los, e sobretudo fornece paradigmas de referência onde as informações recebem significado”.
O projeto prossegue destacando a importância da organização da viagem em conjunto, conhecendo-se uns aos outros para assegurar boa convivência, e discutindo em grupo os detalhes dos itinerários, para realizar uma verdadeira aprendizagem em grupo, muito mais estimulante do que o estudo individual isolado. Depois de outras considerações a justificativa conclui voltando ao mesmo tema:
“Nem todos têm a mesma percepção simbólica, histórica, social da sua pertença pessoal à tradição da Filosofia e do Ocidente: cada um realiza, à sua maneira, um modo próprio de existir como parte de uma grande sociedade. Não há uma maneira única de se aprofundar na consciência da sua cultura, cada um deve vivê-la a seu modo. Só temos que entender, e que defender, que é próprio da universidade esse tipo de formação e de variedade de oportunidades”.
Ir a Atenas é para nós uma forma de obter uma compreensão mais humana e profunda do que é Filosofia.
Tendo em conta estes e outros aspectos a programação da viagem em território grego procurou equilibrar-se entre dois subprogramas distintos, mas de certo modo complementares: um núcleo principal, de visita guiada aos lugares mais significativos da vida grega clássica, e outro de iniciativa individual, de locais mais turísticos, e de diversão e compras. Sob outro ponto de vista a viagem teve outros dois vetores: um o da viagem exterior, vendo e ouvindo, apreciando e comentando, e outro de viagem interior, cada um refletindo sobre o que ia vendo. De modo semelhante o Professor Luís Felipe comentava o sentido de viajar, quando na carta de 10 de janeiro dizia que, apesar de Atenas ser uma cidade decepcionante para o turista, pela sua falta de urbanização, por vezes
“acordo sobressaltado e me dou conta que estou na cidade em que Platão nasceu e pensou e para a qual voltou com a alegria do triste, que súbito recupera o que é mais seu, após alimentar a memória de imagens chocantes do Egito e de Siracusa. Por aqui, em algum lugar, Sócrates bebeu a cicuta e antes disso olhou várias vezes para aquela montanha que estou olhando agora”.
E, comentando as vicissitudes e altos e baixos da história da Grécia disse:
“Hoje não há recanto do globo em que a Grécia não viva, como aquela que morre (…) Somos o produto de uma civilização que vem de longe.”
As cartas foram quatro, num total de trinta páginas, e continham principalmente advertências sobre dificuldades e problemas prováveis e possíveis, sugestões e orientações. Foram muito importantes para a preparação e sobretudo a realização e o proveito eficaz da viagem.
Cabe aqui uma reflexão: o fato de se julgar válida a justificativa de conhecer a Grécia para ambientar as vidas e as ideias dos filósofos estudados já por si coloca uma questão relevante, pois para muitos a filosofia é obra da razão pura e não precisa de ambiente, enquanto que para aqueles que acharam importante esta iniciativa a filosofia é obra da humanidade completa, ou seja, de um conceito mais amplo de razão, ou de racionalidade.
A preparação da viagem foi complexa, sobretudo se considerarmos ainda outros aspectos, como a correspondência com as Embaixadas, e contatos com a Universidade de Atenas, mas, apesar de que nem tudo o que se previa se realizou, o resultado foi muito positivo e não teve maiores problemas.
Chegamos a Atenas no dia 24 de abril, quinta-feira da Semana Santa, e no aeroporto nos esperava o Professor Luís Felipe, um funcionário da Embaixada do Brasil e uma representante da agência de viagens parceira da nossa. Fomos levados ao Hotel Afrodite, muito bem localizado, entre a Praça Syntagma, central, a Catedral Metropolitana da Igreja Ortodoxa, e o mercado turístico da Plaka. Quase do lado do hotel tinha um restaurante de bufê, de boa qualidade e preço acessível, onde fizemos a maioria das refeições em Atenas.
No dia seguinte tratamos de resolver questões do programa que a agência nos entregou, e que era diferente do que tinha sido decidido em Florianópolis. De tarde, sem ninguém ter combinado, nos encontramos todos na Acrópole, que não ficava longe do hotel, e lá a admiração e quase êxtase foi geral, ninguém queria sair dali. Mas à noite alguns fomos assistir às cerimônias de Semana Santa na Catedral. No dia 26 fomos ao Cabo Sounion conhecer o templo de Poseidon, e depois às cerimônias da Páscoa, e no dia seguinte uns foram ao Monte Likavetos e outros a um passeio de barco pelas ilhas mais próximas: Poros, Hydra e Egina.
No dia 28, segunda feira, iniciamos a viagem coletiva de ônibus no Peloponeso: atravessamos o canal de Corinto e chegamos a Epidauro; o ônibus nos deixou nos fundos do teatro de modo que quando lá chegamos nos encontramos todos os trinta no palco da orquestra. Olhamos a arquibancada, famosa por sua perfeita acústica, e um de nós entoou o hino de amor à ilha: logo todos estávamos cantando o hino de Florianópolis, com o devido aplauso do numeroso público, constituído em sua maioria por estudantes jovens, muitos deles, conforme soubemos. vindos da Sérvia. Daí fomos à acrópole de Micenas, uma das origens e fontes da civilização da Grécia clássica, onde entramos pela Porta dos Leões (aliás: Leoas) e vimos o muito que ainda se pode admirar de vestígios de construções imponentes e antiquíssimas.
Ainda impressionados com a visão dos monumentos tão falados e comentados fomos para Náuplia, onde os alunos avisaram que iam à boite local. Depois de tanta civilização clássica uma diversão era importante, mas nem tudo correu bem: pouco depois vieram avisar os professores que na boite ao alunos estavam brigando; lá fomos nós, os ânimos tinham se acalmado, mas daí por diante sempre um professor ia acompanhá-los à boite – o que aconteceu quase todas as noites, inclusive em Olímpia, onde foram pedir ao professor que se fossem embora porque já não havia mais ninguém e queriam fechar a casa – e também a dança foi grande em Santorini. Em Olímpia, além de visitarmos o templo e corrermos no estádio, à noite assistimos um espetáculo de danças regionais.
Em Patras visitamos a magnífica igreja de Santo André e depois fomos ao museu de Corinto retornando ao hotel Afrodite. No dia seguinte, 1º de maio, também sem combinação prévia, resolvemos todos ir a Santorini; embarcamos no porto do Pireu, e a viagem de barco foi longa, passando pelas ilhas de Paros, Naxos e Ios. Em Santorini alugamos carros e percorremos a ilha, conhecida pela sua arquitetura tradicional muito colorida e pelo museu de arqueologia. No dia 4 em Atenas fizemos o circuito principal da cidade, com o guia Constantino, que na Acrópole nos fez excelentes exposições sobre a cultura clássica grega e as concepções estéticas atenienses; no dia seguinte, em Delfos, junto ao templo de Apolo, o mesmo Constantino deu uma aula brilhante sobre a ambiguidade e o sentido dos oráculos, a religião à medida do homem, e a filosofia grega.
Foi ainda o mesmo guia que no dia 6 nos acompanhou nas visitas aos museus, o Arqueológico Nacional e o Bizantino. O dia seguinte foi dedicado à visita à Universidade de Atenas: de manhã os professores foram recebidos pelo Professor Voudouris, do Departamento de Filosofia, e à tarde os professores Sônia Felipe, Alberto Cupani e João Lupi, junto com o Carlos Euclides Marques, muito estudioso da filosofia grega, deram cada um uma palestra breve sobre o sentido da viagem e a importância da cultura grega. E no dia 8 embarcamos de volta ao Brasil. Dos comentários e avaliações falados e escritos, feitos ao final da viagem, podemos destacar dois trechos das palestras no Seminário da Universidade de Atenas.
Um deles compara uma viagem de turismo cultural, como as que se fazem à Grécia, com a História da Filosofia, pois em ambos os casos o sujeito está perante vestígios de uma realidade muito maior, tanto ao estudar a obra de um filósofo como ao apreciar as ruínas de um monumento; afirma o professor que assim como a História da Filosofia que se escreve é uma reconstituição de um pensamento a partir de algumas obras ou trechos, assim o é a imaginação que vê nos vestígios arqueológicos algo que existiu mas não está mais lá:
“é uma fantasia em que projetamos nossas ideias sobre fragmentos que inventam figuras pensantes, mas é reduzido o controle que temos de que essas invenções correspondam ao que esses autores fora, disseram ou pensaram”.
Por isso os historiadores da Filosofia têm tantas opiniões divergentes sobre os mesmos autores. A Grécia que nós vimos é uma Grécia que cada um interioriza à sua maneira, tal como cada pesquisador entende Platão de forma própria.
Carlos Euclides Marques, o estudante conhecido por seu entusiasmo pela filosofia e cultura clássicas gregas, não ficou muito longe desta opinião quando relativizou a percepção da Grécia nesta viagem, balançando entre a decepção e a admiração. Se por um lado o que se vê da Grécia contemporânea não corresponde em nada a uma idealização da sua cultura original, por outro algumas realidades deixam o visitante admirado e até extasiado, e certamente “nosso futuro como estudantes está marcado por esta viagem.” Como exemplo muito positivo citou a visita à ilha de Santorini, onde a arquitetura o encantou, e onde viu as escavações arqueológicas,
“que fez com que vislumbrássemos, ainda que metonimicamente, um período ainda mais antigo da História da Grécia”
Passados alguns dias sobre o retorno foi feita no auditório do Centro uma exposição pública sobre a viagem, para os colegas do curso de Filosofia. E houve várias reuniões de confraternização do grupo, em casa de alguns participantes. Mas certas previsões sobre a continuidade do projeto não se realizaram, nem o intercâmbio com a Universidade de Atenas, nem a repetição da viagem – que ficou na memória de todos.













